A Importância de Evitar o Juridiquês em Contratos

A comunicação clara é fundamental no exercício da advocacia moderna. No entanto, muitos profissionais ainda utilizam o “juridiquês” – uma linguagem complicada, arcaica e muitas vezes incompreensível que dificulta a compreensão dos contratos.

Esta prática, profundamente enraizada na tradição jurídica brasileira, pode trazer sérias consequências tanto para advogados quanto para seus clientes, impactando desde a relação comercial até o resultado de processos judiciais.

O juridiquês vai muito além de uma simples questão de estilo ou preferência pessoal. Ele representa uma barreira real para o entendimento dos direitos e deveres estabelecidos nos contratos, criando um abismo comunicacional entre profissionais do direito e seus clientes. Quando um documento é escrito em linguagem excessivamente técnica e rebuscada, surgem interpretações equivocadas, conflitos desnecessários e processos judiciais que poderiam ser facilmente evitados com uma redação mais clara e objetiva.

A complexidade desnecessária da linguagem jurídica tem raízes históricas profundas, mas sua manutenção no contexto atual representa mais um obstáculo do que uma ferramenta útil.

Em um mundo onde a agilidade nos negócios e a transparência nas relações contratuais são cada vez mais valorizadas, insistir no uso de uma linguagem hermética pode representar uma desvantagem competitiva significativa para os profissionais do direito.

O Que Caracteriza o Juridiquês

O juridiquês manifesta-se através de diversos elementos linguísticos que tornam o texto jurídico hermético e de difícil compreensão para a maioria das pessoas.

Entre suas principais características, destacam-se:

  • Uso excessivo de termos em latim sem necessidade técnica real
  • Expressões arcaicas que já caíram em desuso na linguagem cotidiana
  • Construções sintáticas extremamente complexas com múltiplas subordinadas
  • Repetição desnecessária de conceitos que poderiam ser expressos de forma mais simples

Palavras como “outrossim”, “destarte”, “consoante”, “alhures”, “conquanto” e “nada obstante” são exemplos típicos deste fenômeno linguístico.

Embora estas expressões possuam significado específico e possam ser adequadas em contextos muito particulares, seu uso indiscriminado e exagerado contribui para criar um texto que mais confunde do que esclarece. O mesmo problema ocorre com o abuso de perífrases e circunlóquios, quando uma ideia simples é expressa através de múltiplas palavras desnecessárias, tornando a comunicação prolixa e ineficiente.

Outro aspecto extremamente problemático do juridiquês é a tendência ao uso de frases desproporcionalmente longas, repletas de subordinadas que fazem com que o leitor se perca completamente antes mesmo de chegar ao final do período.

A redundância é outro traço marcante do juridiquês. É comum encontrar contratos onde a mesma ideia é repetida várias vezes com palavras diferentes, criando um texto inflado que poderia ser substancialmente reduzido sem perda de conteúdo ou precisão jurídica.

Por Que o Juridiquês Persiste na Advocacia Brasileira

Existem várias razões complexas e interconectadas que explicam por que o juridiquês ainda é tão comum na advocacia brasileira.

Durante décadas, acreditou-se equivocadamente que uma linguagem rebuscada e formalmente complexa demonstrava maior conhecimento técnico e competência profissional. Esta visão, embora completamente ultrapassada, ainda influencia muitos profissionais que temem parecer menos qualificados ao usar linguagem mais simples.

A formação acadêmica nas faculdades de direito também desempenha um papel fundamental na perpetuação deste problema.

Muitas instituições de ensino superior ainda baseiam seu currículo em textos clássicos escritos em linguagem arcaica, sem fazer a devida adaptação para os padrões comunicacionais contemporâneos. Os estudantes acabam internalizando esses padrões linguísticos e os reproduzem automaticamente em sua prática profissional, acreditando que esta é a forma “correta” de escrever documentos jurídicos.

Há também uma questão relacionada à percepção equivocada sobre segurança jurídica. Muitos advogados acreditam sinceramente que usar termos técnicos complexos e linguagem rebuscada torna o contrato mais “blindado” juridicamente, oferecendo maior proteção contra questionamentos futuros.

Na realidade, acontece exatamente o contrário: contratos claros e bem estruturados são juridicamente mais seguros porque deixam menos margem para interpretações divergentes e questionamentos sobre o real significado das cláusulas.

Os Riscos Concretos do Juridiquês nos Contratos

O uso de linguagem excessivamente complicada em contratos traz diversos riscos práticos e concretos que podem ter consequências graves para todas as partes envolvidas.

Os principais riscos incluem:

  • Má compreensão pelas partes contratantes, levando a inadimplementos não intencionais
  • Interpretação judicial desfavorável para quem redigiu o contrato
  • Aumento significativo de conflitos entre as partes
  • Prejuízos nas relações comerciais futuras
  • Riscos profissionais para os advogados

O primeiro e mais óbvio risco é a má compreensão pelas partes contratantes. Quando um cliente não entende completamente o que está assinando, seja por falta de conhecimento técnico ou pela complexidade desnecessária da linguagem utilizada, podem surgir problemas sérios no futuro.

O cliente pode legitimamente alegar que não compreendeu suas obrigações, que foi induzido a erro ou que as cláusulas não foram adequadamente explicadas.

Os tribunais brasileiros têm demonstrado uma tendência crescente de interpretar contratos de forma mais favorável à parte considerada mais vulnerável, especialmente quando a linguagem utilizada é excessivamente técnica ou obscura. O Superior Tribunal de Justiça já estabeleceu jurisprudência no sentido de que cláusulas escritas de forma ambígua ou deliberadamente complexa devem ser interpretadas contra quem as redigiu.

Outro risco significativo é o aumento substancial da probabilidade de conflitos entre as partes.

Quando os direitos e deveres não estão claramente definidos em linguagem compreensível, é muito mais provável que surjam desentendimentos sobre o real significado das cláusulas contratuais. Estes desentendimentos frequentemente evoluem para disputas judiciais caras, demoradas e desgastantes, prejudicando todos os envolvidos e gerando custos que poderiam ter sido evitados com uma redação mais clara desde o início.

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Benefícios Tangíveis da Linguagem Clara em Contratos

Contratos escritos em linguagem clara e objetiva proporcionam uma série de benefícios tangíveis que impactam positivamente todas as partes envolvidas.

O primeiro e mais importante benefício é a significativa melhoria na compreensão pelas partes contratantes. Quando todos os envolvidos entendem claramente o que está sendo acordado, quais são suas responsabilidades específicas e como devem proceder em diferentes situações, há uma redução drástica nas chances de conflitos futuros e mal-entendidos.

A clareza contratual também resulta em uma melhoria substancial na relação entre advogado e cliente.

Clientes que compreendem plenamente seus contratos desenvolvem maior confiança em seus advogados e ficam significativamente mais satisfeitos com o serviço prestado. Esta satisfação se traduz em relacionamentos profissionais mais duradouros, maior número de indicações e, consequentemente, melhor reputação profissional no mercado.

Do ponto de vista do sistema judiciário, juízes e tribunais demonstram clara preferência por contratos bem escritos e de fácil compreensão. Documentos claros facilitam enormemente o trabalho dos magistrados, permitindo decisões mais rápidas e precisas.

Os benefícios econômicos da linguagem clara são igualmente importantes e mensuráveis.

Contratos bem redigidos reduzem significativamente o tempo gasto pelo advogado em explicações, esclarecimentos e revisões posteriores. Isso se traduz em menor número de horas trabalhadas, custos reduzidos para o cliente e maior eficiência operacional para o escritório de advocacia.

Neste artigo trouxemos diferentes modelos de cartas de recomendação para servir como base para você. É imprescindível lembrarmos que cada situação requer um modelo diferente a ser utilizado e que você deve elaborar com muita atenção sua carta de recomendação para não colocar nenhum dado incorreto. Uma dica útil é revisar o texto com o auxílio de um corretor ortográfico, garantindo clareza e profissionalismo.

Estratégias Práticas para Escrever Contratos Mais Claros

Escrever contratos em linguagem clara não significa de forma alguma abrir mão do rigor técnico necessário ou comprometer a segurança jurídica do documento.

É perfeitamente possível ser tecnicamente preciso e juridicamente robusto utilizando linguagem simples e compreensível.

O primeiro passo fundamental neste processo é conhecer profundamente o público-alvo do documento. Um contrato entre duas grandes corporações pode admitir linguagem ligeiramente mais técnica do que um contrato envolvendo consumidores pessoa física ou pequenas empresas.

A estrutura das frases é um elemento crucial para a clareza. Prefira sempre frases curtas e diretas, evitando períodos excessivamente longos que fazem o leitor se perder no meio do caminho.

Uma boa regra prática é limitar cada frase a uma ideia principal, desenvolvendo conceitos complexos através de múltiplas frases simples em vez de uma única frase complicada.

A voz ativa deve ser preferida à passiva sempre que possível, pois torna o texto mais dinâmico, claro e direto. Em vez de escrever “será realizado o pagamento pela parte contratante”, é muito melhor dizer “o comprador pagará”.

A substituição de termos arcaicos por palavras contemporâneas é uma estratégia simples mas extremamente eficaz:

  • Em vez de “outrossim”, use “além disso” ou “também”
  • No lugar de “destarte”, prefira “assim”, “portanto” ou “dessa forma”
  • Substitua “consoante” por “conforme” ou “de acordo com”
  • Troque “alhures” por “em outro lugar” ou “anteriormente”

A organização lógica do contrato é fundamental para sua compreensibilidade.

Utilize títulos e subtítulos descritivos para dividir o conteúdo de forma intuitiva. Numere as cláusulas de forma clara e consistente, criando uma hierarquia lógica que facilite a localização de informações específicas. Considere incluir um índice em contratos mais extensos, permitindo que as partes encontrem rapidamente as seções relevantes.

Exemplos Práticos de Simplificação da Linguagem Contratual

Para demonstrar concretamente como simplificar a linguagem contratual sem perder precisão jurídica, vejamos uma série de exemplos práticos que ilustram transformações eficazes.

Exemplos de transformações eficazes:

  • Antes: “As partes contratantes têm entre si justo e acordado o presente instrumento particular de prestação de serviços”

    Depois: “As partes fazem este contrato de prestação de serviços”
  • Antes: “Fica o contratado obrigado a prestar os serviços ora contratados de acordo com as especificações técnicas constantes do anexo”

    Depois: “O prestador deve executar os serviços conforme as especificações do anexo”
  • Antes: “O pagamento será efetuado mediante a apresentação da competente nota fiscal, observando-se o prazo de 30 dias”

    Depois: “O cliente pagará em até 30 dias após receber a nota fiscal”
  • Antes: “Em caso de inadimplemento das obrigações ora assumidas, ficará o inadimplente sujeito ao pagamento de multa de 10%”

    Depois: “Quem não cumprir suas obrigações pagará multa de 10% do valor total”

Para cláusulas de rescisão, transforme “O presente instrumento poderá ser rescindido por qualquer das partes contratantes, mediante comunicação prévia e por escrito, com antecedência mínima de 30 dias” em “Qualquer parte pode cancelar este contrato com aviso por escrito de 30 dias”.

Em cláusulas de confidencialidade, mude “As partes se comprometem a manter absoluto sigilo sobre todas as informações confidenciais que venham a ter conhecimento em decorrência da execução deste contrato” para “As partes manterão sigilo sobre informações confidenciais relacionadas a este contrato”.

Estes exemplos demonstram que é possível manter toda a força jurídica necessária utilizando linguagem significativamente mais simples e acessível.

O Papel da Tecnologia na Simplificação Contratual

A tecnologia moderna oferece ferramentas valiosas que podem auxiliar significativamente na criação de contratos mais claros e compreensíveis.

As principais ferramentas tecnológicas incluem:

  • Programas de análise de texto que identificam frases complexas
  • Softwares especializados em revisão jurídica
  • Modelos padronizados bem elaborados
  • Plataformas de gestão contratual com recursos de legibilidade
  • Inteligência artificial para sugestões de simplificação

Existem diversos programas de análise de texto que identificam automaticamente frases excessivamente complexas, palavras difíceis ou construções sintáticas problemáticas. Essas ferramentas podem alertar o redator sobre trechos que necessitam simplificação, funcionando como um “filtro de clareza” durante o processo de redação.

Softwares especializados em revisão de textos jurídicos incluem funcionalidades específicas para identificar juridiquês desnecessário, sugerindo alternativas mais simples para termos arcaicos ou construções complexas.

Alguns programas até mesmo calculam índices de legibilidade, permitindo que o advogado monitore objetivamente o nível de complexidade de seus documentos.

Modelos de contratos padronizados, quando bem elaborados por profissionais experientes, também contribuem significativamente para a clareza contratual. Eles permitem que advogados utilizem linguagem já testada, aprovada e otimizada, adaptando apenas os pontos específicos de cada negócio.

Nem todos os profissionais da área jurídica aceitam facilmente a transição para uma linguagem mais simples e direta.

Muitos ainda têm receios legítimos de parecer menos competentes técnicamente ou de comprometer a segurança jurídica de seus documentos. Superar essas resistências requer uma abordagem cuidadosa e baseada em evidências concretas dos benefícios da linguagem clara.

É fundamental deixar claro que clareza não significa superficialidade ou falta de rigor técnico. Um contrato pode ser simultaneamente simples de ler e tecnicamente robusto, completo e juridicamente seguro.

O desafio profissional está justamente em encontrar o equilíbrio perfeito entre precisão técnica e compreensibilidade, demonstrando maior habilidade do que simplesmente reproduzir fórmulas prontas em juridiquês.

Para convencer profissionais céticos, é muito útil apresentar exemplos práticos de contratos claros que funcionaram bem na prática, geraram menos conflitos e resultaram em maior satisfação dos clientes.

Demonstrar os benefícios tangíveis, como redução efetiva de questionamentos, diminuição do tempo gasto em esclarecimentos e melhoria na relação com clientes, ajuda a superar resistências baseadas em preconceitos ou tradições ultrapassadas.

O Impacto Transformador na Advocacia Contemporânea

A advocacia está passando por transformações profundas e aceleradas, impulsionadas por mudanças nas expectativas dos clientes, avanços tecnológicos e evolução das práticas comerciais.

Neste contexto de mudança, clientes modernos esperam cada vez mais transparência, eficiência e comunicação clara de seus advogados. Escritórios que insistem em manter práticas ultrapassadas como o uso indiscriminado do juridiquês podem encontrar-se em desvantagem competitiva significativa.

Empresas contemporâneas, especialmente aquelas inseridas em mercados dinâmicos e competitivos, valorizam enormemente parceiros jurídicos que facilitam e agilizam seus negócios, em vez de complicá-los desnecessariamente.

Contratos claros e bem estruturados aceleram substancialmente as negociações, reduzem custos de transação e minimizam riscos operacionais. Isso é especialmente crítico em um ambiente de negócios onde a velocidade de decisão pode determinar o sucesso ou fracasso de uma oportunidade comercial.

A concorrência crescente no mercado jurídico também exerce pressão natural por maior eficiência e qualidade dos serviços prestados.

Advogados que produzem documentos claros, compreensíveis e eficazes ganham vantagem competitiva substancial. Eles conseguem atender mais clientes em menos tempo, com maior qualidade e satisfação, resultando em crescimento sustentável de suas práticas profissionais.

IMPORTANTE: O Artigo acima foi escrito e revisado por nossos advogados. Ele tem função apenas informativa, e deve servir apenas como base de conhecimento. Sempre consulte um advogado para analisar seu caso concreto.

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